Enquanto a escuridão paira sobre uma cidade predominantemente carente e com déficit estrutural, marcada por diversas denúncias que vão desde falta de água até ruas deterioradas, a Prefeitura de Axixá do Tocantins decidiu contratar um show milionário para animar um evento tradicional da cidade. A dupla Bruno & Marrone foi escolhida para uma apresentação anunciada como épica, ou, ao menos, considerada superfaturada por críticos.
A contratação foi formalizada no Processo Administrativo nº 062/2025, autorizado em 29 de outubro de 2025 pelo prefeito Auri Wulange Ribeiro Jorge, por meio de inexigibilidade prevista no art. 74, II, da Lei 14.133/2021, que permite a contratação direta de artistas consagrados quando há inviabilidade de competição.
Segundo documentos, a empresa WBM Produtora de Eventos LTDA, CNPJ 09.261.808/0001-05, com sede em São Paulo e representada por Rodrigo Martino Barbosa, receberá o valor de R$ 1.100.000,00 (um milhão e cem mil reais) pelo espetáculo. O show está previsto para ocorrer no dia 14 de março de 2026 no Bairro Biodiesel, onde tradicionalmente é realizado.
Há, porém, um ponto intrigante nesse contexto: o valor do contrato não acompanha a média praticada em outras localidades. A mesma dupla se apresentou em diferentes cidades brasileiras por valores significativamente menores do que o contratado por Axixá. Em Petrolina, no sertão pernambucano, por exemplo, o show realizado em 17 de junho custou R$ 780 mil, uma diferença de R$ 320 mil.
As duas cidades apresentam realidades populacionais e financeiras completamente distintas. Enquanto Petrolina tem cerca de 419 mil habitantes, com um PIB de R$ 8 bilhões e PIB per capita de R$ 22 mil, Axixá registra um PIB de R$ 141 milhões e PIB per capita de apenas R$ 14 mil. Nesse cenário, o valor de R$ 1,1 milhão torna-se ainda mais desproporcional.
Apesar da legalidade do contrato, muitos moradores consideram a decisão escandalosa, sobretudo porque a cidade frequentemente não consegue atender sequer às necessidades básicas da população. Recentemente, diversas reclamações evidenciaram a fragilidade da gestão em resolver problemas cotidianos. Um exemplo é o povoado Santa Luzia, que ficou cerca de cinco meses sem água, segundo denúncias apuradas pelo Cerrado Tribune. Em outra situação, moradores relataram longas filas para consultas médicas, chegando a aguardar até 12 horas para serem atendidos.


Essa não é a primeira vez que o prefeito Auri se envolve em situações desse tipo. Recentemente, o TCE/TO declarou ilegal a contratação do show do cantor Nattan, realizado em 22 de março de 2024 durante o XIX Enduro, ao custo de R$ 500 mil. Embora a apresentação tenha ocorrido, o Tribunal apontou irregularidades formais, incluindo ausência de documentação exigida por lei, falta de justificativa detalhada para a contratação direta e ausência de comprovação da habilitação da empresa contratada.

