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Praia Norte vive sequência de afastamentos, cassação e disputa judicial: “A gente nunca sabe o que pode acontecer”, diz professor

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Por Daiane Silva

Praia Norte é uma cidade pequena do Bico do Papagaio, mas com potencial que, segundo moradores e lideranças locais, vai muito além de seu tamanho. Nos últimos meses, entretanto, o município passou a viver uma sequência de acontecimentos políticos e judiciais que transformou a administração municipal em um cenário de incertezas.

A equipe do Diário de Augustinópolis esteve no município para acompanhar de perto essa crise e entrevistou o professor Gildo Sousa Alencar, que assumiu uma posição ativa na mobilização de parte da população e esteve à frente da organização de manifestações pela saída da então prefeita Bruna Gabrielle Neves Pires de Araújo, conhecida como Bruna do Ho-Che-Min.

A crise que atingiu Praia Norte, porém, não se resume a uma disputa política entre grupos. Ela envolve decisões judiciais, processos eleitorais, afastamentos, cassação de mandato e uma mudança no comando da Prefeitura que ainda está cercada por incertezas.

Hoje, o município é administrado por Abrão Carolino da Silva, conhecido como Cabeça. O próprio portal oficial da Prefeitura apresenta Abrão como prefeito.

Mas a permanência dele no cargo também está relacionada a uma disputa judicial que começou nas eleições municipais de 2024.

“Um dia prefeito, outro a prefeita”

Foi justamente a instabilidade política que mais chamou a atenção do professor Gildo durante a conversa com o Diário de Augustinópolis.

Ao falar sobre o cenário vivido pelo município, ele resumiu o sentimento de incerteza com uma frase:

“A gente nunca sabe o que pode acontecer. Um dia sim e um dia não, um dia prefeito, outro a prefeita. Nunca sabemos o que pode acontecer.”

A sequência de acontecimentos ajuda a entender a origem dessa percepção.

Bruna Gabrielle foi eleita prefeita em 2024, tendo Abrão Carolino como vice. Em 2026, após decisões judiciais que determinaram seu afastamento, Abrão passou a comandar o município.

A situação, entretanto, não se estabilizou.

Em agosto, Bruna chegou a retornar ao cargo após uma decisão favorável do Tribunal de Justiça do Tocantins. Poucos dias depois, em 21 de agosto, foi novamente afastada por decisão judicial. A medida tinha caráter cautelar e estava relacionada a uma ação de improbidade administrativa.

No mesmo dia, veio outra decisão, dessa vez da Câmara Municipal.

Os vereadores cassaram o mandato de Bruna Gabrielle por sete votos favoráveis e duas abstenções. O processo político-administrativo analisado pelo Legislativo tratava de supostas irregularidades relacionadas aos repasses dos duodécimos destinados à Câmara.

A sequência de decisões fez com que Praia Norte passasse, em poucos meses, por diferentes momentos de comando político.

Da expectativa à nova incerteza

Quando Abrão Carolino assumiu a Prefeitura, uma parte da população, segundo Gildo, passou a enxergar a mudança como uma possibilidade de estabilização administrativa.

A expectativa, porém, não durou muito.

Isso porque o próprio prefeito está envolvido em um processo eleitoral relacionado à eleição municipal de 2024.

Uma Ação de Investigação Judicial Eleitoral (AIJE) tramita na 21ª Zona Eleitoral e apura denúncias de suposta compra de votos, abuso de poder político e econômico e uso da máquina pública durante aquele processo eleitoral.

As acusações são relacionadas à chapa formada por Bruna Gabrielle e Abrão Carolino. O processo inclui alegações apresentadas pelo Partido Liberal e documentos que ainda estão sob análise da Justiça Eleitoral.

Em setembro de 2025, a Justiça Eleitoral havia determinado a cassação dos diplomas de Bruna Gabrielle e Abrão Carolino e a inelegibilidade de Ho-Che-Min. Em outubro daquele ano, o juiz da 21ª Zona Eleitoral manteve a decisão após analisar recursos apresentados pelas defesas.

A existência dessas decisões não significa, entretanto, que a situação esteja encerrada. O caso ainda pode passar por outras instâncias da Justiça Eleitoral.

É justamente essa possibilidade que preocupa Gildo.

Segundo o professor, a surpresa foi perceber que, mesmo depois de Abrão assumir o comando do município e gerar expectativa de estabilidade, o novo prefeito também passou a enfrentar o risco de perder o mandato em razão do processo eleitoral.

“A educação, a infraestrutura estava tudo indo por água abaixo”

Para Gildo, o problema ultrapassa a disputa pelo comando da Prefeitura.

Na avaliação dele, a sucessão de conflitos políticos e administrativos acabou atingindo áreas que deveriam permanecer funcionando independentemente de quem ocupa o cargo.

A educação, a infraestrutura estava tudo indo por água abaixo. Tudo sendo destruído”, afirmou.

A fala do professor traduz uma das principais preocupações apresentadas durante a entrevista: enquanto prefeitos e decisões judiciais se sucedem, a administração pública precisa continuar funcionando.

É a população que depende diariamente das escolas, das unidades de saúde, da infraestrutura urbana e dos demais serviços municipais.

A crise política, portanto, não acontece apenas dentro dos gabinetes.

Ela interfere na percepção que os próprios cidadãos têm sobre a capacidade do município de manter uma administração estável.

Quando Gildo deixou de ser apenas espectador

Durante a entrevista, o Diário de Augustinópolis perguntou ao professor em que momento ele deixou de acompanhar os acontecimentos apenas como cidadão e decidiu assumir uma posição mais ativa.

Gildo contou que, diante do que vinha acompanhando em Praia Norte, decidiu tomar uma atitude.

Foi então que passou a participar da organização das manifestações realizadas no município.

A mobilização ganhou força em meio ao avanço dos processos contra a então prefeita.

Em junho de 2026, a Câmara Municipal havia aceitado pedidos de impeachment contra Bruna Gabrielle. Um dos pedidos que deram origem ao processo foi apresentado pelo próprio Gildo Alencar.

A Comissão Processante posteriormente apresentou parecer favorável à cassação da prefeita. O documento apontou, entre outras questões, supostos repasses a menor e fora do prazo dos duodécimos destinados ao Legislativo.

Em 21 de agosto, a Câmara decidiu pela cassação.

A cidade no meio de processos diferentes

A situação de Praia Norte se tornou complexa porque diferentes processos passaram a caminhar simultaneamente.

Há a esfera político-administrativa, que resultou na cassação de Bruna pela Câmara.

Há a esfera judicial, com decisões de afastamento e processos relacionados à administração municipal.

E existe ainda a esfera eleitoral, envolvendo a chapa eleita em 2024.

São processos diferentes, com objetos diferentes e decisões que podem produzir consequências distintas.

No caso eleitoral, por exemplo, a ação que envolve Bruna e Abrão investiga fatos relacionados à campanha de 2024. Entre as acusações apresentadas estão suposta compra de votos, abuso de poder político e econômico e uso da estrutura administrativa em benefício eleitoral. As alegações ainda são objeto de análise judicial e não devem ser tratadas como fatos definitivamente comprovados.

Mesmo assim, para quem vive no município, o efeito concreto é uma sensação de insegurança política.

A pergunta que Gildo gostaria de ver respondida

Ao final da entrevista, o Diário de Augustinópolis fez ao professor uma pergunta direta:

Qual é a principal pergunta que ele gostaria que a Justiça, a Prefeitura e os responsáveis pelos atos investigados respondessem à população de Praia Norte?

A resposta veio sem rodeios.

“A pergunta é simples: vai continuar essa instabilidade? A Justiça não consegue colocar um ponto final nisso tudo?”

A pergunta resume o momento vivido pelo município.

Praia Norte já passou por afastamento, retorno ao cargo, novo afastamento, cassação e mudança no comando do Executivo. Ao mesmo tempo, processos eleitorais relacionados à eleição de 2024 continuam sendo discutidos.

No portal oficial da Prefeitura, Abrão Carolino aparece atualmente como prefeito do município, sinal de que, neste momento, é ele quem está à frente da administração municipal.

Mas a própria história recente da cidade mostra como esse cenário pode mudar rapidamente.

E é justamente essa falta de previsibilidade que preocupa o professor Gildo.

Enquanto a Justiça analisa os processos e as instituições seguem seus procedimentos, Praia Norte permanece diante de uma questão maior: como recuperar a estabilidade política e administrativa necessária para que a cidade volte a concentrar suas forças no desenvolvimento e nos problemas concretos enfrentados pela população?

Uma cidade pequena, com potencial para crescer, não pode permanecer indefinidamente presa à sucessão de disputas pelo poder.

Daiane Silva

Daiane Silva

Olá, meu nome é Daiane Silva, tenho 23 anos e estudo Publicidade e Propaganda na Universidade Estácio de Sá, além de Jornalismo na Universidade Federal do Maranhão. Tenho uma paixão especial por narrar histórias de pessoas comuns, especialmente no jornalismo de profundidade, onde cada detalhe é meticulosamente explorado, sem deixar nada de fora. Valorizo a experiência de sentir, ouvir e reviver os eventos que reporto. No Diário de Augustinópolis, meu papel principal é trazer informações detalhadas e de alta qualidade. Estou à disposição para recebê-los aqui sempre que possível.