14 de set. 2026 às 12:44
Por Daiane Silva
Praia Norte é uma cidade pequena do Bico do Papagaio, mas com potencial que, segundo moradores e lideranças locais, vai muito além de seu tamanho. Nos últimos meses, entretanto, o município passou a viver uma sequência de acontecimentos políticos e judiciais que transformou a administração municipal em um cenário de incertezas.
A equipe do Diário de Augustinópolis esteve no município para acompanhar de perto essa crise e entrevistou o professor Gildo Sousa Alencar, que assumiu uma posição ativa na mobilização de parte da população e esteve à frente da organização de manifestações pela saída da então prefeita Bruna Gabrielle Neves Pires de Araújo, conhecida como Bruna do Ho-Che-Min.
A crise que atingiu Praia Norte, porém, não se resume a uma disputa política entre grupos. Ela envolve decisões judiciais, processos eleitorais, afastamentos, cassação de mandato e uma mudança no comando da Prefeitura que ainda está cercada por incertezas.
Hoje, o município é administrado por Abrão Carolino da Silva, conhecido como Cabeça. O próprio portal oficial da Prefeitura apresenta Abrão como prefeito.
Mas a permanência dele no cargo também está relacionada a uma disputa judicial que começou nas eleições municipais de 2024.
“Um dia prefeito, outro a prefeita”
Foi justamente a instabilidade política que mais chamou a atenção do professor Gildo durante a conversa com o Diário de Augustinópolis.
Ao falar sobre o cenário vivido pelo município, ele resumiu o sentimento de incerteza com uma frase:
“A gente nunca sabe o que pode acontecer. Um dia sim e um dia não, um dia prefeito, outro a prefeita. Nunca sabemos o que pode acontecer.”
A sequência de acontecimentos ajuda a entender a origem dessa percepção.
Bruna Gabrielle foi eleita prefeita em 2024, tendo Abrão Carolino como vice. Em 2026, após decisões judiciais que determinaram seu afastamento, Abrão passou a comandar o município.
A situação, entretanto, não se estabilizou.
Em agosto, Bruna chegou a retornar ao cargo após uma decisão favorável do Tribunal de Justiça do Tocantins. Poucos dias depois, em 21 de agosto, foi novamente afastada por decisão judicial. A medida tinha caráter cautelar e estava relacionada a uma ação de improbidade administrativa.
No mesmo dia, veio outra decisão, dessa vez da Câmara Municipal.
Os vereadores cassaram o mandato de Bruna Gabrielle por sete votos favoráveis e duas abstenções. O processo político-administrativo analisado pelo Legislativo tratava de supostas irregularidades relacionadas aos repasses dos duodécimos destinados à Câmara.
A sequência de decisões fez com que Praia Norte passasse, em poucos meses, por diferentes momentos de comando político.
Da expectativa à nova incerteza
Quando Abrão Carolino assumiu a Prefeitura, uma parte da população, segundo Gildo, passou a enxergar a mudança como uma possibilidade de estabilização administrativa.
A expectativa, porém, não durou muito.
Isso porque o próprio prefeito está envolvido em um processo eleitoral relacionado à eleição municipal de 2024.
Uma Ação de Investigação Judicial Eleitoral (AIJE) tramita na 21ª Zona Eleitoral e apura denúncias de suposta compra de votos, abuso de poder político e econômico e uso da máquina pública durante aquele processo eleitoral.
As acusações são relacionadas à chapa formada por Bruna Gabrielle e Abrão Carolino. O processo inclui alegações apresentadas pelo Partido Liberal e documentos que ainda estão sob análise da Justiça Eleitoral.
Em setembro de 2025, a Justiça Eleitoral havia determinado a cassação dos diplomas de Bruna Gabrielle e Abrão Carolino e a inelegibilidade de Ho-Che-Min. Em outubro daquele ano, o juiz da 21ª Zona Eleitoral manteve a decisão após analisar recursos apresentados pelas defesas.
A existência dessas decisões não significa, entretanto, que a situação esteja encerrada. O caso ainda pode passar por outras instâncias da Justiça Eleitoral.
É justamente essa possibilidade que preocupa Gildo.
Segundo o professor, a surpresa foi perceber que, mesmo depois de Abrão assumir o comando do município e gerar expectativa de estabilidade, o novo prefeito também passou a enfrentar o risco de perder o mandato em razão do processo eleitoral.
“A educação, a infraestrutura estava tudo indo por água abaixo”
Para Gildo, o problema ultrapassa a disputa pelo comando da Prefeitura.
Na avaliação dele, a sucessão de conflitos políticos e administrativos acabou atingindo áreas que deveriam permanecer funcionando independentemente de quem ocupa o cargo.
“A educação, a infraestrutura estava tudo indo por água abaixo. Tudo sendo destruído”, afirmou.
A fala do professor traduz uma das principais preocupações apresentadas durante a entrevista: enquanto prefeitos e decisões judiciais se sucedem, a administração pública precisa continuar funcionando.
É a população que depende diariamente das escolas, das unidades de saúde, da infraestrutura urbana e dos demais serviços municipais.
A crise política, portanto, não acontece apenas dentro dos gabinetes.
Ela interfere na percepção que os próprios cidadãos têm sobre a capacidade do município de manter uma administração estável.
Quando Gildo deixou de ser apenas espectador
Durante a entrevista, o Diário de Augustinópolis perguntou ao professor em que momento ele deixou de acompanhar os acontecimentos apenas como cidadão e decidiu assumir uma posição mais ativa.
Gildo contou que, diante do que vinha acompanhando em Praia Norte, decidiu tomar uma atitude.
Foi então que passou a participar da organização das manifestações realizadas no município.
A mobilização ganhou força em meio ao avanço dos processos contra a então prefeita.
Em junho de 2026, a Câmara Municipal havia aceitado pedidos de impeachment contra Bruna Gabrielle. Um dos pedidos que deram origem ao processo foi apresentado pelo próprio Gildo Alencar.
A Comissão Processante posteriormente apresentou parecer favorável à cassação da prefeita. O documento apontou, entre outras questões, supostos repasses a menor e fora do prazo dos duodécimos destinados ao Legislativo.
Em 21 de agosto, a Câmara decidiu pela cassação.
A cidade no meio de processos diferentes
A situação de Praia Norte se tornou complexa porque diferentes processos passaram a caminhar simultaneamente.
Há a esfera político-administrativa, que resultou na cassação de Bruna pela Câmara.
Há a esfera judicial, com decisões de afastamento e processos relacionados à administração municipal.
E existe ainda a esfera eleitoral, envolvendo a chapa eleita em 2024.
São processos diferentes, com objetos diferentes e decisões que podem produzir consequências distintas.
No caso eleitoral, por exemplo, a ação que envolve Bruna e Abrão investiga fatos relacionados à campanha de 2024. Entre as acusações apresentadas estão suposta compra de votos, abuso de poder político e econômico e uso da estrutura administrativa em benefício eleitoral. As alegações ainda são objeto de análise judicial e não devem ser tratadas como fatos definitivamente comprovados.
Mesmo assim, para quem vive no município, o efeito concreto é uma sensação de insegurança política.
A pergunta que Gildo gostaria de ver respondida
Ao final da entrevista, o Diário de Augustinópolis fez ao professor uma pergunta direta:
Qual é a principal pergunta que ele gostaria que a Justiça, a Prefeitura e os responsáveis pelos atos investigados respondessem à população de Praia Norte?
A resposta veio sem rodeios.
“A pergunta é simples: vai continuar essa instabilidade? A Justiça não consegue colocar um ponto final nisso tudo?”
A pergunta resume o momento vivido pelo município.
Praia Norte já passou por afastamento, retorno ao cargo, novo afastamento, cassação e mudança no comando do Executivo. Ao mesmo tempo, processos eleitorais relacionados à eleição de 2024 continuam sendo discutidos.
No portal oficial da Prefeitura, Abrão Carolino aparece atualmente como prefeito do município, sinal de que, neste momento, é ele quem está à frente da administração municipal.
Mas a própria história recente da cidade mostra como esse cenário pode mudar rapidamente.
E é justamente essa falta de previsibilidade que preocupa o professor Gildo.
Enquanto a Justiça analisa os processos e as instituições seguem seus procedimentos, Praia Norte permanece diante de uma questão maior: como recuperar a estabilidade política e administrativa necessária para que a cidade volte a concentrar suas forças no desenvolvimento e nos problemas concretos enfrentados pela população?
Uma cidade pequena, com potencial para crescer, não pode permanecer indefinidamente presa à sucessão de disputas pelo poder.

