12 de ago. 2026 às 20:11
• Concessionária responsável pelo abastecimento possui contrato de 30 anos e valor estimado em R$ 97 milhões com Esperantina; Prefeitura afirma estar reunindo laudos e evidências sobre os problemas relatados
Moradores de Vila Tocantins, distrito de Esperantina, voltaram a procurar a reportagem para relatar problemas no abastecimento de água. Entre as principais reclamações estão períodos de desabastecimento, baixa pressão, fornecimento concentrado durante a noite e questionamentos relacionados à qualidade da água.
O serviço é prestado pela Sannorte Saneamento, concessionária que assumiu o abastecimento de água e o esgotamento sanitário de Esperantina em 2021.
O contrato foi assinado em 27 de agosto de 2021, tem prazo de 30 anos e valor estimado em aproximadamente R$ 97 milhões. Entre as obrigações da concessionária estão a operação, manutenção, ampliação e melhoria dos sistemas de abastecimento e esgotamento sanitário, além da realização de investimentos e atendimento aos usuários.
Questionamentos começaram antes das atuais denúncias
As reclamações sobre a prestação do serviço não são recentes.
Em 2022, representantes da Sannorte foram convocados pela Câmara Municipal de Esperantina para prestar esclarecimentos sobre o abastecimento de água.
No ano seguinte, em 2023, ainda durante a gestão municipal passada, um requerimento apresentado pelo vereador Arnaldo Ferreira Farias solicitou a abertura de uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) para investigar a atuação da Sannorte no município.
O pedido foi encaminhado à Mesa Diretora, conforme o regimento da Câmara, para apreciação e posterior votação em plenário.
O registro é anterior à atual gestão municipal e integra o histórico de questionamentos públicos relacionados à concessão.
Estrutura empresarial
A reportagem também levantou informações sobre a estrutura societária da Sannorte.
Documentos públicos consultados apontam Heryky Souza André como presidente da Sannorte. Glaucilene Marina Silva Souza aparece como diretora da empresa.
Heryky também aparece como CEO e presidente da Ambientallix Ambiental S/A.
O levantamento identificou ainda empresas relacionadas ao empresário, entre elas a própria Sannorte, a Ambientallix Ambiental, a Superavit Participações e a Ambientallix Soluções em Resíduos.
A Sannorte também possui filiais em diferentes municípios. Entre os registros identificados estão a Sannorte Alpha, em Esperantina; Sannorte Beta, em Dois Irmãos do Tocantins; Sannorte Gamma, em Bandeirantes do Tocantins; e Sannorte Delta, em Pau D’Arco, no Pará.
A matriz da empresa foi constituída em 2019. As filiais foram abertas posteriormente. A unidade de Esperantina, por exemplo, possui CNPJ próprio registrado em 17 de setembro de 2024.
O sistema de abastecimento em Vila Tocantins
O Plano Municipal de Saneamento registra que Vila Tocantins possui dois poços e dois reservatórios, com capacidade total de armazenamento de 200 mil litros.
O documento aponta ainda que, à época do levantamento, o sistema funcionava em média 14 horas por dia e apresentava produção aproximada de 21,5 metros cúbicos de água por hora.
Moradores, porém, afirmam que atualmente enfrentam períodos sem água e baixa pressão nas torneiras. Também há relatos de fornecimento durante a noite e de problemas relacionados à qualidade da água.
Segundo os relatos recebidos pela reportagem, alguns moradores precisam comprar água mineral para consumo.
Prefeitura afirma que está reunindo provas
A reportagem procurou o poder público municipal para saber quais medidas estão sendo adotadas.
O vereador Lucas Ribeiro afirmou que a Prefeitura está ciente das reclamações e que o município vem reunindo elementos técnicos para documentar os problemas.
Segundo ele, foram contratados profissionais para produzir laudos técnicos sobre a qualidade da água. O município também estaria reunindo fotos, vídeos e outros registros relacionados ao abastecimento e ao sistema de esgotamento sanitário.
A intenção, segundo o vereador, é realizar uma escuta pública com os moradores, por meio de uma audiência pública, para registrar formalmente as reclamações e reunir novas evidências.
Depois dessa etapa, a Câmara e o município pretendem buscar o Ministério Público e também chamar representantes, sócios e responsáveis pela empresa para uma reunião, com o objetivo de discutir uma solução para os problemas.
Lucas Ribeiro explicou ainda que uma eventual rescisão ou rompimento da concessão não pode ocorrer simplesmente por decisão política. Segundo ele, é necessário reunir provas técnicas que demonstrem eventual descumprimento das obrigações previstas no contrato.
Reportagem tentou contato com a Sannorte
A reportagem tentou contato com a Sannorte por meio do telefone disponibilizado publicamente pela empresa, mas o número não funcionou.
Os questionamentos também foram encaminhados por e-mail. Até o fechamento desta matéria, não havia sido recebida manifestação oficial.
A Sannorte tem direito de resposta e poderá apresentar esclarecimentos sobre as reclamações dos moradores, o cumprimento do contrato de concessão e os demais pontos levantados pela reportagem.
Denúncia foi encaminhada ao Ministério Público
Diante das denúncias recebidas e dos documentos levantados durante a apuração, a reportagem também protocolou uma denúncia junto ao Ministério Público do Estado do Tocantins (MPTO).
A representação solicita a apuração das condições do abastecimento em Vila Tocantins, da qualidade da água, do funcionamento da estrutura existente e do cumprimento das obrigações previstas no contrato de concessão.
A reportagem não afirma a existência de irregularidades. O objetivo é apresentar os relatos dos moradores, os registros documentais e o posicionamento do poder público, além de encaminhar as denúncias aos órgãos competentes para que os fatos sejam devidamente apurados.

